sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Qualidade Total para apenas alavancar vendas.

Toyotismo e acumulação flexível: a “qualidade total” como estratégia do capital 
O toyotismo surgiu como solução para a crise do capital ocorrida nos 
anos 70. Originário no Japão, de dentro das fábricas de automóveis  Toyota, 
ganhou terreno e estendeu-se pelo mundo todo. Com ele, uma nova forma de 
organização industrial e de relação entre capital e trabalho emerge das cinzas 
do taylorismo/fordismo. De acordo com Sabel & Piore, estas novas relações 7
eram mais favoráveis aos trabalhadores quando comparadas às existentes no 
modelo anterior, principalmente por possibilitarem o advento de um trabalhador 
mais qualificado, participativo, multifuncional, polivalente, dotado de maior 
realização no ambiente de trabalho (SABEL & PIORE, 1984).  
Estratégias como o  just in time,  team work,  kanban, a eliminação do 
desperdício e o controle de qualidade total são parte do discurso do modelo 
toyotista de produção e adotadas pelas empresas em todo o mundo. Essas 
estratégias tornaram-se modismo entre os consultores de Recursos Humanos, 
outplacements,  hadhunters  e demais especialistas em contratação e 
recolocação de profissionais. Somente as empresas que encontram-se 
integradas a tais estratégias são tidas como empresas-modelo, recebendo os 
certificados de qualidade ISO 9000, 9001, 9002, etc. 
Assim, observa-se como o poder transformador do capital atinge 
dimensões globais. O que é conveniente para os fins capitalistas deve ser 
adotado por todos os que integram o sistema e o metabolismo social do capital 
se encarrega disso. Transforma-se não só as relações de produção, na esfera 
econômica, mas também os conceitos de qualificação do trabalhador, na esfera 
sociocultural. O discurso da “qualidade total” é um bom exemplo a ser citado e 
debatido. Recordando as reivindicações por melhores condições de trabalho na 
década de 60 e o descontentamento público com a tendência decrescente do 
valor de uso das mercadorias, fica fácil compreendermos a razão pela qual o 
capital insiste em qualificar processos de produção, trabalhadores e produtos 
tendo como referência os padrões estabelecidos pelo discurso da “qualidade total”.  
No intuito de convencer a todos de que o ambiente e as relações de 
trabalho são os melhores possíveis, estabelece-se os certificados de qualidade 
ISO. Isso também se verifica com as mercadorias, que só são liberadas para o 
mercado quando passam pelas inspeções de qualidade. O mesmo ocorrendo 
com os profissionais a serem contratados ou analisados, só prevalecendo os 
que forem qualificados (ou seja, terem qualidade) o suficiente. Os lucros 
capitalistas dependem do mercado e do consumidor. Se o mercado exige 
qualidade é porque o público consumidor também exige. E o capital sabe muito 8
bem disso e por isso instaura os programas e certificados de “qualidade total” 
(ANTUNES, 1999). 
Mas atenção especial tem que ser dada   à falácia    destes programas. 
John Tomaney destaca que mesmo onde exemplos de especialização flexível 
podem ser identificados, isso não tem trazido necessariamente benefícios para 
o trabalho ou o trabalhador. Observam-se, até mesmo, exemplos crescentes de 
intensificação do trabalho onde o sistema  just in time, por exemplo, é 
implantado (TOMANEY, 1996). Da mesma forma, a introdução de tecnologia 
computadorizada não vem acarretando a emergência do trabalho qualificado 
como conseqüência. Divulgam-se as mudanças no processo produtivo, 
ocorridas com o advento do toyotismo, enfatizando melhorias no que diz 
respeito ao trabalho mais qualificado e habilitado – como o trabalho em equipe, 
a multifuncionalidade e a polivalência, a flexibilidade – , mas oculta-se que este 
mesmo processo tem levado freqüentemente à intensificação e precarização 
do trabalho.  
O mesmo se dá com a “qualidade total” das mercadorias. No intuito de 
convencer o público consumidor da “qualidade” dos seus produtos, as 
empresas implantam os certificados  ISO de “qualidade total”. Mészáros 
destaca como estratégia do capital a utilização decrescente do valor de uso 
das mercadorias (MÉSZÁROS, 1995). O capital depende da dinâmica do 
mercado de produtos, que é dada pela contínua substituição das mercadorias 
velhas pelas novas. Portanto, quanto menor vida útil tiver um produto, maior 
será a dinâmica do mercado de consumo e, consequentemente, maior será o 
lucro obtido pelas empresas. A utilização decrescente do valor de uso é 
fundamental para o processo de valorização do capital. Conforme salienta 
Antunes (1999):  “na empresa da era da reestruturação produtiva, torna-se 
evidente que quanto mais ‘qualidade total’ os produtos devem ter  menor 
tempo de duração” (p.50). A “qualidade total” torna-se, então, 
inteiramente compatível com a chamada lógica da produção destrutiva, na qual 
os traços marcantes são o desperdício, a destrutividade e a rápida 
obsolescência dos produtos.   
Visto sob esta ótica, não restam dúvidas de que o discurso da “qualidade 
total” é mais uma das estratégias do capital para atingir seu objetivo único e 9
primordial: o lucro. O divulgado “respeito” pelo consumidor (que sofre com a 
baixa qualidade dos produtos) ou pelo trabalhador (afetado pela intensificação 
e exploração do processo de trabalho, ocultadas pelos certificados de 
qualidade), ocorrido com os processos de reestruturação produtiva, não passa 
de alienação diante da cruel realidade. Alienação esta que é uma arma 
poderosa, da qual se utiliza o sistema de metabolismo social do capital.  

Marcos de Castro Pere

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