O toyotismo surgiu como solução para a crise do capital ocorrida nos
anos 70. Originário no Japão, de dentro das fábricas de automóveis Toyota,
ganhou terreno e estendeu-se pelo mundo todo. Com ele, uma nova forma de
organização industrial e de relação entre capital e trabalho emerge das cinzas
do taylorismo/fordismo. De acordo com Sabel & Piore, estas novas relações 7
eram mais favoráveis aos trabalhadores quando comparadas às existentes no
modelo anterior, principalmente por possibilitarem o advento de um trabalhador
mais qualificado, participativo, multifuncional, polivalente, dotado de maior
realização no ambiente de trabalho (SABEL & PIORE, 1984).
Estratégias como o just in time, team work, kanban, a eliminação do
desperdício e o controle de qualidade total são parte do discurso do modelo
toyotista de produção e adotadas pelas empresas em todo o mundo. Essas
estratégias tornaram-se modismo entre os consultores de Recursos Humanos,
outplacements, hadhunters e demais especialistas em contratação e
recolocação de profissionais. Somente as empresas que encontram-se
integradas a tais estratégias são tidas como empresas-modelo, recebendo os
certificados de qualidade ISO 9000, 9001, 9002, etc.
Assim, observa-se como o poder transformador do capital atinge
dimensões globais. O que é conveniente para os fins capitalistas deve ser
adotado por todos os que integram o sistema e o metabolismo social do capital
se encarrega disso. Transforma-se não só as relações de produção, na esfera
econômica, mas também os conceitos de qualificação do trabalhador, na esfera
sociocultural. O discurso da “qualidade total” é um bom exemplo a ser citado e
debatido. Recordando as reivindicações por melhores condições de trabalho na
década de 60 e o descontentamento público com a tendência decrescente do
valor de uso das mercadorias, fica fácil compreendermos a razão pela qual o
capital insiste em qualificar processos de produção, trabalhadores e produtos
tendo como referência os padrões estabelecidos pelo discurso da “qualidade total”.
No intuito de convencer a todos de que o ambiente e as relações de
trabalho são os melhores possíveis, estabelece-se os certificados de qualidade
ISO. Isso também se verifica com as mercadorias, que só são liberadas para o
mercado quando passam pelas inspeções de qualidade. O mesmo ocorrendo
com os profissionais a serem contratados ou analisados, só prevalecendo os
que forem qualificados (ou seja, terem qualidade) o suficiente. Os lucros
capitalistas dependem do mercado e do consumidor. Se o mercado exige
qualidade é porque o público consumidor também exige. E o capital sabe muito 8
bem disso e por isso instaura os programas e certificados de “qualidade total”
(ANTUNES, 1999).
Mas atenção especial tem que ser dada à falácia destes programas.
John Tomaney destaca que mesmo onde exemplos de especialização flexível
podem ser identificados, isso não tem trazido necessariamente benefícios para
o trabalho ou o trabalhador. Observam-se, até mesmo, exemplos crescentes de
intensificação do trabalho onde o sistema just in time, por exemplo, é
implantado (TOMANEY, 1996). Da mesma forma, a introdução de tecnologia
computadorizada não vem acarretando a emergência do trabalho qualificado
como conseqüência. Divulgam-se as mudanças no processo produtivo,
ocorridas com o advento do toyotismo, enfatizando melhorias no que diz
respeito ao trabalho mais qualificado e habilitado – como o trabalho em equipe,
a multifuncionalidade e a polivalência, a flexibilidade – , mas oculta-se que este
mesmo processo tem levado freqüentemente à intensificação e precarização
do trabalho.
O mesmo se dá com a “qualidade total” das mercadorias. No intuito de
convencer o público consumidor da “qualidade” dos seus produtos, as
empresas implantam os certificados ISO de “qualidade total”. Mészáros
destaca como estratégia do capital a utilização decrescente do valor de uso
das mercadorias (MÉSZÁROS, 1995). O capital depende da dinâmica do
mercado de produtos, que é dada pela contínua substituição das mercadorias
velhas pelas novas. Portanto, quanto menor vida útil tiver um produto, maior
será a dinâmica do mercado de consumo e, consequentemente, maior será o
lucro obtido pelas empresas. A utilização decrescente do valor de uso é
fundamental para o processo de valorização do capital. Conforme salienta
Antunes (1999): “na empresa da era da reestruturação produtiva, torna-se
evidente que quanto mais ‘qualidade total’ os produtos devem ter menor
tempo de duração” (p.50). A “qualidade total” torna-se, então,
inteiramente compatível com a chamada lógica da produção destrutiva, na qual
os traços marcantes são o desperdício, a destrutividade e a rápida
obsolescência dos produtos.
Visto sob esta ótica, não restam dúvidas de que o discurso da “qualidade
total” é mais uma das estratégias do capital para atingir seu objetivo único e 9
primordial: o lucro. O divulgado “respeito” pelo consumidor (que sofre com a
baixa qualidade dos produtos) ou pelo trabalhador (afetado pela intensificação
e exploração do processo de trabalho, ocultadas pelos certificados de
qualidade), ocorrido com os processos de reestruturação produtiva, não passa
de alienação diante da cruel realidade. Alienação esta que é uma arma
poderosa, da qual se utiliza o sistema de metabolismo social do capital.
Marcos de Castro Pere